O uso do Santo Daime no parto

Nov 14, 2017 | Português

Vera Fróes Fernandes

Vera Fróes Fernandes

Historiadora

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O Santo Daime (ayahuasca) tem um papel de destaque entre as plantas de poder no universo do sagrado feminino por estar ligado ao mito e ao mistério do nascimento. A arte de partejar com preparações botânicas remonta a 2000 anos a.C. Parteiras indígenas (arquétipo da mulher selvagem) passaram essa prática para as parteiras da bacia amazônica e esse onhecimento foi transmitido de geração em geração. Povos indígenas da América pré-colombiana estabeleciam a comunhão com a natureza reverenciando a mãe Terra, sendo a ayahuasca, a  professora, que lhes transmitia ensinamentos e fazia a integração da tradição entre as populações caboclas.

Se, nos últimos 2000 anos, a história fez questão de excluir o papel e o poder da mulher, agora a força feminina está emergindo. Mulheres indígenas se iniciam como pajés, quebrando tabus e estabelecendo novos paradigmas. Na era das religiões matriarcais, a grande Deusa Mãe, seu poder gerador, seu útero e seus partos eram venerados. A capacidade de gerar um filho era uma oportunidade de uma iniciação regida pelo princípio lunar.

Na cultura do Santo Daime, o sagrado feminino é simbolizado na imagem da Nossa Senhora da Conceição, a Rainha da Floresta. Padroeira da doutrina, ela surge dentro da lua para revelar os ensinamentos do casamento alquímico das plantas de poder: a folha chacrona e o cipó jagube. Como representações simbólicas da mãe e do pai, elas confortam e castigam, e juntas geram o filho de ouro, o chá do Santo Daime, cujo nome vem do verbo dar, em referência a pedidos que se fazem nos trabalhos espirituais, sendo atendidos aqueles que tiverem merecimento.

Na década de 1980, na cidade de Rio Branco – AC, destacava-se a comunidade agrícola e extrativista da Colônia Cinco Mil, liderada pelo seringueiro Sebastião Mota de Melo, o Padrinho Sebastião, principal responsável pela expansão do Santo Daime além das fronteiras do país. Era rezador reconhecido, recebia o espírito curador de Bezerra de Menezes, auxiliava em partos difíceis e incentivava as parteiras no uso do Santo Daime, chamadas de “madrinhas”, entre elas: Maria Corrente, Dalvina Corrente, Maria Nogueira, Francisca Corrente e a mais requisitada, Cristina Raulino. Sua alma feminina e libertadora reconhecia o papel da mulher e reverenciava suas qualidades, numa época e região marcadas pelo patriarcado.

“A mulher deve ser considerada como a presença da Virgem Soberana Mãe. O homem cresceu tanto que abafou a pobre da mulher, deixou ela como escrava, mas agora quem dá o valor dela é Deus. Elas são até mais do que o homem. Elas tiveram tanta oportunidade com Deus que seu Filho gerou-se nela.” (Padrinho Sebastião, Céu do Mapiá, 1987)

As parteiras do Santo Daime, têm a visão interior, leem o movimento do útero em gestação com as mãos, que são os olhos da intuição e da experiência, se entregam à visão interior com rezas, orações e cânticos, dão segurança, acalmam e aliviam com massagens, óleos, banhos e defumações. Por isso são chamadas de “madrinhas”.

As parteiras do Santo Daime são as guardiãs da antiga arte de partejar. Respeitam o ritmo biológico, dão total liberdade para a mulher escolher a melhor posição, propiciando-lhes um ambiente acolhedor, com suporte no pré-natal, no parto e no puerpério. Abrem o espaço para quem quer compartilhar, estimulando jovens aprendizes nesse ofício. Seguem critérios de qualidade para um parto seguro e satisfatório, tanto para mãe como para a criança, dando uma demonstração de verdadeiro sentimento de solidariedade.

Segundo a psiquiatra junguiana Adelise Monteiro, autora do livro Partejar (2015), a estreita relação da parteira com o xamã está baseada no fato de ambos acessarem o inconsciente em contínua experiência religiosa, com capacidade de profetizar, uma vez que rompem a barreira espaço-tempo e empregam técnicas de morrer e ressuscitar. O parto é uma experiência transformadora, um rito de passagem, é preciso total intimidade com os processos inconscientes, é preciso entregar-se, interagir com a dor, deixar fluir, se religar com a base feminina mais profunda e confiar no guia – a parteira.

Ao longo da minha pesquisa, na área de história das mentalidades coletivas, tive a oportunidade de presenciar diversos partos com o Santo Daime na comunidade e todos foram bem-sucedidos, mesmo em casos de situações adversas, como circular cervical de cordão umbilical, má posição fetal etc. Além das plantas enteógenas, as parteiras utilizavam plantas aliadas, ou seja, ervas medicinais que auxiliavam na arte de partejar, como por exemplo: mentrasto (Ageratum conyzoide), para banho e diagnóstico; algodão (Gossypium herbaceum) para retenção da placenta; copaíba (Copaifera langsdorfii), para cicatrização do períneo, entre muitas outras.

Em 1986 vivenciei essa experiência, estimulada pela possibilidade de um parto normal considerado inviável para a medicina convencional, mas realizado com sucesso pela parteira da comunidade, a madrinha Francisca Corrente. O nascimento de minha filha foi a experiência mais gratificante e marcante que vivi.

Nessa época, o orientador da minha pesquisa do CNPq, o farmacólogo Frederico Arruda, da Universidade Federal do Amazonas, desenvolvia um estudo com dois grupos de cadelas prenhas. Um grupo recebeu o chá da ayahuasca e o outro não. No grupo que ingeriu o chá, constataram-se partos mais rápidos e fáceis, com o nascimento de filhotes mais ágeis e espertos do que os do outro grupo. Nesse experimento foram observados o aceleramento das contrações, o relaxamento da musculatura lisa e uma possível ativação dos neurorreceptores.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que o parto natural tem menor taxa de adesão, com exceção de países como Holanda e a Suécia. No Brasil, 37% dos partos realizados na rede pública são cesarianas, na rede privada esse número aumenta para 82%. Os parâmetros da OMS para uma boa assistência a maternidade preveem uma taxa de apenas 15% de parto por cessaria e 85% de parto normal. Na década de 1970 teve início o processo de medicalização do parto, no entanto, em partes das regiões norte e nordeste a tradição ainda se mantém devido ao isolamento geográfico dessas áreas. Atualmente, existe um movimento em torno da humanização do parto que leva em consideração o fato de apenas 10% dos partos serem de risco. A OMS estimula o parto domiciliar como modelo válido e sugere que seja incorporado ao Sistema Único de Saúde.

A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), do Ministério da Saúde do Brasil, significou um avanço ao incorporar, em 2006, medicinas tradicionais de outros países no Sistema Único de Saúde (SUS). Com a medida, o sistema público passou a oferecer práticas terapêuticas da medicina chinesa, da medicina ayurvédica, da homeopatia e da acupuntura, embora não tenha contemplado a medicina tradicional ameríndia, da qual a ayahuasca faz parte, e é fruto da nossa diversidade cultural e ambiental. Existem no mundo 800 espécies de jagube (Banisteriopsis caapi), entre as quais cerca de 400 estão concentradas na América do Sul, especialmente na Amazônia.

A ayahuasca é baseada numa economia cooperativa, com uma metodologia descritiva que vem apontando caminhos inovadores no tratamento de diversas enfermidades, como alcoolismo, drogadição, mal de Parkinson e depressão. O chá pode ser empregado não somente para enfermidades, mas também no trabalho de parto e como veículo de autoconhecimento.

Algumas questões podem ser levantadas. Está na hora de reconhecer a ayahuasca como fitoterápico e fitomedicamento? O primeiro passo é ela não ser considerada droga ilícita, para sair da lista da Organização Mundial de Saúde que contém substâncias proibidas e entrar para a farmacopeia popular como legado. O movimento de toda comunidade ayahuasqueira conseguiu um grande passo, ao se estabelecer como patrimônio cultural no Peru.

O próximo passo é ela e seus usos serem considerados como práticas integrativas e complementares a serem incorporadas ao PNPIC, pois, além de ser parte de uma cultura, é algo que produz saúde. Naturalmente todo medicamento tem seus riscos e precisa de acompanhamento em sua administração.

De acordo com o psiquiatra e pesquisador Ricardo Moebus (UFOP), há diversos medicamentos com efeito psicotrópico usados no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), como o haloperidol e o diazepan, cujos importantes efeitos colaterais não impedem que se mantenha sua utilização. O chá da ayahuasca ativa a função dos neurorreceptores, atuando sobre a dopamina e a serotonina, e, ainda, tem efeito inibidor da MAO (enzima monoamonaoxodase), e o potencial terapêutico da DMT (Dimetiltriptamina), entre outros princípios ativos.

Chegou a hora de darmos um empurrão nesse processo. Já é tempo de reconhecer oficialmente a utilização da ayahuasca como prática integrativa de saúde, a partir de seu uso histórico, etnobotânico e medicinal. A partir do reconhecimento do Estado, a medicina tradicional ganha mais sentido e passa a ser valorizada e respeitada. O pajé não precisa entrar no Sistema Único de Saúde (SUS), mas o SUS sabe onde está o pajé e sabe onde estão as parteiras que usam poções botânicas.

Encorajar o parto natural, com ou sem preparações botânicas, é reconstruir o encantamento da celebração da vida, é o resgate e a valorização dos conhecimentos tradicionais, muito além da visão biomédica e materialista dos hospitais. Manter viva a tradição do parto humanizado é um ato de resistência contra o monopólio das práticas de saúde e a produção de medicamentos, além de valorizar nosso patrimônio cultural, contido nos tradicionais saberes e fazeres intuitivos ou empíricos sobre o uso das plantas.

 

 

Vera Fróes Fernandes

Vera Fróes Fernandes

Historiadora

Vera Fróes Fernandes es historiadora por la Universidad Federal de Acre (UFAC), con especialización en etnobotánica por el Instituto Botánico Nacional de Investigación (N.B.R.I), Lucknow, India y posee un posgrado en Gestión de la Innovación en Fitomedicina de Biodiversidad brasileña, por la Fiocruz. Es vicepresidente en el Instituto de Estudios Culturales y Ambientales (IECAM) y coordinadora de proyectos ambientales en la Amazonia. Se unió al Santo Daime en 1978 en Acre. Actualmente asiste a la iglesia Flor de la Montaña, Lumiar, Río de Janeiro. Escribió uno de los primeros libros sobre el Santo Daime: “Santo Daime – Cultura Amazónica- Historia del pueblo Juramidam” (Juárez, 1986). Ha colaborado en el libro “El arte de la obstetricia – mito y misterio del nacimiento a la luz de la Santa Daime” (Primo, 2015), de Adelise Monteiro, pediatra, psiquiatra, y daimista.