O genio saiu da garrafa…

Dic 4, 2017 | Português

Fernando Ribeiro

Fernando Ribeiro

Historiador

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No início de 2016 recebi um convite para participar da segunda Conferência Mundial da Ayahuasca, no Acre, e fazer uma palestra. Seria no mês de Outubro. A primeira havia sido em Ibiza, Espanha, 2 anos antes. Acompanhei pela internet. Soube que foi muito interessante, primeiro evento deste porte, reunindo autoridades do mundo acadêmico para falar sobre o universo da AYAHUASCA. Muito importante este tema ser tratado no âmbito científico, um reconhecimento da sociedade moderna sobre o uso das plantas sagradas, no caso a Ayahuasca, e tudo que isso move. As principais palestras foram  gravadas e estão disponíveis na internet. Certamente um passo importante no processo de reconhecimento e legitimidade destas práticas na era moderna. Porém um ponto chamou a atenção, quase não havia representantes dos povos originais, apenas alguns poucos, a grande maioria eram cientistas e estudiosos do mundo acadêmico. Isso acabou influenciando a escolha do local para a segunda edição. Houve questionamentos se seria Cusco ou Rio Branco, mas a capital do Acre, berço das principais tradições ayahuasqueiras da atualidade, acabou sendo escolhida. Iniciou-se então uma rede de comunicações, telefonemas, encontros, viagens, até conseguir o apoio das autoridades locais e da UFAC (Universidade Federal do Acre) que acabou sediando o evento.

Alguns amigos, em especial Juan Carlos e Bia Labate, participaram da organização e pude acompanhar um pouco dos  bastidores. Uma grande incógnita. Na parte prática, estrutural, financeira, logística, etc. era radicalmente distinto sediar um evento em Ibiza, com celebridades do mundo acadêmico, e outro em Rio Branco, Acre, também com muitos palestrantes renomados, mas com infinidade de lideranças e representantes das mais diversas tradições, muitas desconhecidas para os organizadores. A Instituição que está por traz destas conferências chama-se ICEERS (International Center for Ethnobotanical Education Research & Service). É uma organização espanhola, catalã, não conheço em detalhes, mas se apresenta como um centro de pesquisas e estudos etnobotânicos, com foco no uso de plantas psicoativas como Iboga, Ayahuasca, também inserida na legalidade da cannabis e tudo que isto representa hoje na sociedade. A equipe que veio ao Acre era de gente jovem, todos familiarizados com o universo da ayahuasca, seja por experiências com xamâs, povos indígenas, viagens ao Peru, Amazônia, cerimônias de Daime, e trabalharam bastante para montar o delicado quebra cabeças de palestras e apresentações dos distintos grupos e famílias ayahauasqueiras. No dia da abertura, poucas horas antes da cerimônia oficial, participei de uma reunião onde um pajé, com cocar na cabeça, falava bastante indignado “isso é um absurdo, uma conferência sobre ayahuasca e os espanhóis convidam a gente??? Nós que devíamos convidar eles…” e nesse clima, sobre o calor sufocante do Acre, ocorreu a bela cerimônia de abertura, no auditório principal, com destaque para a presença do Tata Yawanawa, que do alto de seus 104 anos abençoou o evento.

Foi um presente participar deste momento marcante na história da Ayahuasca. O universo conspirou. Eu havia sido convidado mas não havia cobertura financeira para transporte nem hospedagem. Surgiu então uma viagem de trabalho, acompanhando um parceiro japonês por várias regiões da Amazônia, tudo coberto, fomos inclusive ao Céu do Mapiá, e justamente no dia 16 de Outubro ele embarcou de volta -rumo ao Japão- no aeroporto de Rio Branco. No dia seguinte tinha início a AYA 2016. Acabei ficando no hotel Ibis, em frente à UFAC, onde estavam todos os palestrantes e organizadores, tudo coberto pelo  evento, e pude participar das conversas mais reservadas e dos bastidores da grande conferência.

Muito interessante todos aqueles hóspedes reunidos no mesmo hotel. No café da manhã fervilhavam os encontros e os assuntos, todo tipo de cientistas, estudiosos da Ayahuasca, xamãs, daimistas, índios e a turma do ICEERS. Na Universidade o saguão principal foi transformado na sede do evento. Havia um auditório maior, onde acontecia a programação principal, outro menor com diversas palestras, e ainda uma sala de projeções onde acontecia uma espécie de festival de cinema, tudo focado no universo da Ayahuasca. Era bastante dinâmico, tínhamos que ficar atentos para acompanhar a programação. No saguão havia uma área grande coberta, com exposição de todo tipo de produtos, artesanatos indígenas, roupas, pinturas,
aconteciam apresentações de dança, música, e era onde circulava a população do evento. As diferentes nações ayahuasqueiras da era moderna reunidas, talvez por primeira vez. Encontros surpreendentes a cada momento. Havia também tendas e barraquinhas servindo comidas típicas, regionais, que atendiam a demanda de alimentação. Começava pela manhã, 08:00, e seguia até as 17:00. À noite sempre havia cerimônias, em outros locais, das diversas tradições. Era quando a planta e os professores se apresentavam realmente.

Mas a incógnita do evento não era apenas sobre as logísticas e organizações. Havia o estudo mais fino sobre tudo que viria a tona através dos palestrantes. Nunca havia sido feito um evento com esse perfil, reunindo lideranças das principais casas ayahasqueiras, todos contando sua história, e junto também toda a complexa trama de relações entre elas. Poderíamos de maneira genérica dividir o evento em 3 grandes grupos. O dos cientistas, acadêmicos, estudiosos das tradições, que via de regra não são filhados a nenhuma delas, mas conhecem e se dedicam a estudá-las. Outro das novas tradições ayahuasqueiras, Santo Daime, União do Vegetal e Barquinha, e um terceiro que são os povos originais, indígenas. Há ainda um quarto grupo que são os independentes, que usam a planta à sua maneira, sem vínculo com nenhuma raiz, terapeutas, neo-xamãs e outras denominações, mas estes não estão inseridos na trama inter-relacional das famílias ayahuasqueiras. São mais observadores que participantes.

As novas tradições espiritualistas nascidas no Acre, em especial as 3 referidas, tem já uma longa história percorrida, com as marcas do caminho. Interessante notar que a entrada das tradições indígenas no cenário da ayahuasca é posterior, bastante recente. Sem nenhuma dúvida são eles os povos originais, de onde vem toda a memória desta planta sagrada, porém nas últimas décadas houve muita invasão da cultura do homem branco, todo tipo de igrejas e religiões, e suas tradições ancestrais estavam um pouco ofuscadas. Os próprios pajés afirmam que a chama espiritual de seu povo reascendeu com a história do Mestre Irineu e do Padrinho Sebastião. A expansão do Santo Daime chegou às aldeias e acendeu as fogueiras…

Muitos pontos polêmicos marcaram a história das novas tradições ayahuasqueiras. A tradição daimista nasceu na pessoa do Mestre Raimundo Irineu Serra. Reuniu seu povo e – até o dia da partida- estavam todos sobre o mesmo teto. Porém após sua ausência no plano material houve rupturas. Observando ao longe é compreensível essas ramificações, não poderia ocorrer tudo no mesmo terreiro, mas no calor dos acontecimentos ficam marcas, feridas que custam a sarar. Tudo isto viria à tona durante o evento. A função dos espanhóis –palavras deles- era apenas montar o espetáculo, mas a história seria escrita pelos povos ayahuasqueiros, cada um teria a oportunidade de contar sua história. Assim foi.

A União do Vegetal não conheço em detalhes sua organização, se é apenas um centro que congrega a todos, ou se existem ramificações, mas é sempre bem representada. Nota-se que é uma organização sólida. Da barquinha conheço as três casas. Uma delas (Madrinha Francisca Gabriel) tem centros vinculados em outras partes do Brasil. O Santo Daime, nascido na pessoa do Mestre Irineu, 45 anos após sua partida, é constituído por algumas famílias, já bem estruturadas, que seguem os ensinos de seu professor. A raiz está onde ele plantou, no Alto Santo, aos cuidados da viúva, Madrinha Pelegrina e seu povo. A maior ramificação, nascida na casa do Mestre, é a família de Sebastião Mota, o Padrinho Sebastião. Através dele a nova escola  espiritual da floresta se expandiu pelo Brasil e pelo mundo. Ele também partiu, em 1990, e hoje é seu filho, o Padrinho Alfredo, quem segura o leme da maior organização daimista do planeta. Outra família marcante é do Padrinho Luis Mendes e seu filho Saturnino, ambos também discípulos diretos do Mestre. Não conheço todas em detalhes, que estão ali em volta do centro original, sei do seu Tufi, Sr Nica, e creio que existe algum outro centro daimista dirigido por discípulos do Mestre, mas basicamente são esses.

A história de Sebastião Mota, pelo porte que tomou, causou polêmica entre os centros radicados no Acre. Ainda hoje  reverberam ecos, e vieram à tona durante a conferência. Logo no segundo dia houve uma mesa redonda composta por representantes das tradições ditas “tradicionais”, a UDV, Barquinha e Alto Santo (centro original do Mestre Irineu). Boa parte de suas palestras focou no processo de legalização e, claro, na história e princípios de cada um. Assisti com bastante atenção. Os palestrantes falavam com muita autoridade, bons oradores, uma apresentação em preparada, e passaram seu recado. Porém alguns pontos chamaram atenção.

Durante a narrativa do processo de legalidade em nenhum momento foi citado o nome de Sebastião Mota. Ora, todos que acompanharam sabem que as duas instituições principais que trabalharam pela legalidade, ainda nos anos 80, junto ao CONFEM, foram a UDV com sua sólida organização e o CEFLURIS do Padrinho Sebastião, com o Céu do Mapiá no meio da floresta e diversos centros em outras regiões do País. Acompanhei a primeira visita do CONFEM ao Céu do Mapiá, em 86, foi muito impactante, depois visitaram todos os centros que nasciam pelo País. Houve muito trabalho durante aqueles anos. A Barquinha e Alto Santo por aqueles tempos eram centros locais, sem ligações fora, certamente contribuíram no processo de
legalidade, por seu testemunho firme, sua beleza e originalidade, mas quem organizou os movimentos, advogados, viagens, reuniões em Brasilia, contatos permanentes, foram UDV e CEFLURIS. Inclusive o envolvimento pessoal dos membros da comissão foi muito intenso. Uma psicóloga, Clara, e os três filhos do grande responsável por aquela vitória, sr Domingos Bernardo, todos se fardaram na casa do Padrinho Sebastião, ou seja, é inegável a participação marcante do CEFLURIS em todo este processo.

Mas isto traz à tona outra questão ainda mais de fundo. Um dos principais pontos polêmicos com a história de Sebastião Mota, a expansão desta tradição para fora das fronteiras da Amazônia. Houve muita resistência. Quando teve início a abertura do Céu do Mapiá, 82, a história do Padrinho Sebastião tinha já seu cabedal. Havia um povo grande a sua volta, vivendo comunitariamente no meio da floresta. Não circulava dinheiro e todos viviam do trabalho comum. Um grande sonho em andamento. O carisma espiritual deste homem congregava toda aquela gente, e outros mais foram chegando. Interessante compreender que ele mesmo, ou gente ligada à ele, nunca saiu procurando ou anunciando nada. Pessoas do mundo naturalmente chegaram até ele, aprenderam a trabalhar e pediram sua permissão para levar a sagrada medicina à suas terras. Em base à sua vivência espiritual, na força do vegetal sagrado que guiava seus passos, teve a força e a coragem de abençoar a saída do Santo Daime para o mundo. Inclusive cumprindo uma profecia do Mestre Irineu, que já cantava em seu hinário “doutrinar o mundo inteiro / para todos aprender…” Mas esse movimento gerou uma onda forte de protestos nas casas daimistas de Rio Branco. Depois que tudo está feito parece fácil, mas o tempo de abertura desta medicina para o mundo envolveu uma grande luta, tanto internamente entre os povos daimistas, como externamente, com a sociedade. O Padrinho Sebastião foi o homem forte escolhido para abrir o portal.

Coloco assim uma ínfima parte desta enorme história, obviamente, porque presenciei diretamente. Porém sem retirar o valor de todas as casas daimistas que vem segurando com firmeza a escola viva do Mestre Irineu. Este, por sinal, é um ponto marcante deste grande estudo, que também ficou muito claro durante a conferência. O medo maior, quando se pensava na saída desta grande escola espiritual para o mundo, era justamente a banalização, ou até em palavras mais fortes, a profanação da bebida sagrada. As armas do mundo –MATRIX- trabalham sempre para tirar o valor profundo das  manifestações espirituais. Fizeram assim com outras plantas, como o tabaco, a coca, a cannabis, também oriundas de tradições espirituais, transformadas em drogas mundanas da modernidade. Falava-se muito –nos inicios da expansão- sobre este cuidado, a intenção não era propagar o “uso” de uma determinada substancia, mas sim propagar a escola do Mestre Irineu, com todos os seus preceitos. Assim como a UDV e a Barquinha propagam também suas refinadas escolas espirituais. Porém durante a Conferência vimos a representação de alguns dos chamados “independentes”. Este sim um ponto polêmico. Quem são estes “independentes”? Em sua maioria são ex membros de alguma das tradições, onde aprenderam partes básicas do estudo e decidiram partir para formas próprias de trabalho com o vegetal sagrado, sem conexão com nenhuma raiz.

Este um ponto que merece grande atenção. As tradições enteógenas, que trabalham com as plantas, sempre remetem a uma comunicação com o plano espiritual. Todas elas, sejam estas nascidas no Acre, as nativas, indígenas, xamânicas, todas se dizem oriundas do mundo espiritual. A força mágica da planta, com as entidades ou presenças que acompanham, trazem todos os ensinamentos sobre o uso desta medicina. Por isso são chamadas escolas e plantas professoras. As principais casas ayahuasqueiras que trabalham hoje no planeta, são erguidas sobre esta lápide. Já os ditos independentes, podemos dividir em dois grupos básicos. Um deles que não observa qualquer preceito espiritual, que compreende e estuda a força da planta apenas no sentido terapêutico, de autoconhecimento e penetração em níveis mais profundos da personalidade. Normalmente são psicólogos, terapeutas holísticos, ou estudiosos que servem a bebida em seus consultórios ou locais afins. O outro grupo deixa transparecer alguma forma de espiritualidade. Alguns se nomeiam neo xamãs, utilizam cânticos e orações aprendidos nas escolas por onde passaram, falam da natureza, forças cósmicas, mas não seguem os preceitos (a forma de trabalhar com o vegetal sagrado) de nenhuma escola ou tradição. Fazem a seu modo, guiados pela própria intuição.

Vejamos então estes casos. O primeiro é um caminho bastante exigente. Conheço um especificamente, onde percebo uma seriedade na condução e acompanhamento. Isto exige uma disponibilidade com os participantes não só no momento da experiência, mas nos dias seguintes, nas repercussões que o processo vai gerando em suas vidas. Tendo uma estrutura emocional e psicológica muito sólida e desenvolvida, para dar segurança aos participantes, um conhecimento real da planta e sua manifestação, e a disponibilidade para acompanhar os processos individuais, é possível colher bons frutos. Porém quando se fala em estrutura emocional e psicológica sólida, entende-se a sabedoria de não cair nas armadilhas do ego. Se houver algum interesse oculto, que não seja a real e verdadeira intenção de se curar e ajudar as  pessoas a vencer suas batalhas interiores, qualquer desvio pode trazer consequências graves no decorrer dos anos. Não digo que seja impossível tirar bom proveito de um trabalho assim, mas manter isto no tempo exige uma dedicação enorme. Os que não possuem a impecabilidade de caráter sucumbem rapidamente, outros duram um pouco mais, mas é muito difícil dar sequência a um trabalho com a ayahuasca, sem ter mapas, bússolas e rotas de navegação. Assim mesmo, só o tempo poderá dizer se estou certo, ou não, pois tudo isto ainda é muito recente como manifestação.

O segundo grupo de “independentes” –espiritualistas- pedem uma atenção especial. Aqui, se entendemos o trabalho com a ayahuasca como uma comunicação direta ao plano espiritual, só temos dois caminhos. O mesmo raciocínio quando vemos uma manifestação mediúnica, não existe meio termo. Ou tem realmente uma entidade espiritual trabalhando, e isto se percebe, ou o “médium” está enroscado nas artimanhas do ego. Quando alguém se vê como um xamã, ou professor em algum sentido, capacitado a servir a bebida sagrada e conduzir cerimônias à sua maneira, sem seguir os preceitos das escolas, também só há dois caminhos. Ou é um escolhido, guiado por entidades do astral superior, como ocorreu com os fundadores das grandes escolas, ou é guiado por seu ego e os caprichos de um caráter mal lapidado. Muitas vezes estes “neo xamãs”, como alguns se chamam, costumam carregar alguma mágoa ou ressentimento das escolas onde aprenderam a trabalhar. A síndrome do “incompreendido”, que não souberam dar seu valor. As provas no caminho são severas, muitos não conseguem acompanhar. Entre os que abandonam, alguns querem usar a bebida a sua maneira, sem os preceitos das escolas onde foram reprovados, e nascem histórias calcadas mais em mágoas e ressentimentos do ego, que na inspiração divina do universo. Assim mesmo ainda existe brecha para algum estudioso, amante verdadeiro da força da planta, que persista no tempo
trabalhando com dignidade, com retidão de princípios, com a humildade da alma, e alcance a misericórdia do vegetal sagrado, sendo incorporado por ELE a seu batalhão. Não digo que isto seja impossível. Mas me inclino mais ao comentário do Biraci Yawanawá quando perguntaram sobre todos estes povos que estão hoje tomando a bebida à sua maneira, curto e grosso, cegos guiando cegos…

Entrei neste assunto porque ao final da conferência tive esse entendimento muito claro. O grande encontro reafirmou meu reconhecimento e respeito com todas as tradições ayahuasqueiras e xamânicas, as grandes escolas espirituais americanas, inclusive o sonho de poder ver todas reunidas um dia, em uma grande cerimônia inter espiritual, e a percepção do grande perigo que é a expansão do uso indiscriminado, sem raiz, sem tradição, e em muitos casos, sem ética.

São temas que se fizeram presentes durante o evento. O universo indígena também causou um grande impacto, trazendo novas questões, inclusive sobre o lugar que lhes cabe na cosmologia ayahuasqueira hoje. Trouxeram sua força e originalidade –no sentido de raiz, origem, ancestro- mas também o olhar agudo e a vontade de ocupar o seu lugar. O tema inicial relatado, sobre o índio indignado por serem espanhóis convidando ele, é justamente isso. A questão do reconhecimento, quem é quem no universo ayahuasqueiro. Muitas celebridades espirituais reunidas em um pequeno espaço. Tudo vem à tona. A realidade das diferentes tradições, aldeias, povos indígenas já é muito complexa, e agora se soma ao mundo ayahuasqueiro do homem branco. Uma grande teia de inter relações. A grande luz aparecia de noite, durante as celebrações, quando cada povo apresentava sua história. A beleza das manifestações trouxe essa compreensão, que o tempo vai colocando tudo em seu lugar.

Uma situação específica revelou um aspecto grande deste estudo. O Pajé Ashaninka Benke, presença marcante em momentos centrais da conferência, trouxe o assunto de seu avô Samuel, que seria o Pajé que serviu a bebida sagrada ao Mestre Irineu. Isto, pensado como parte da história, é completamente possível, todas as narrativas referem a um Pajé indígena, na fronteira entre Brasil e Peru, que teria introduzido o Mestre Irineu nos mistérios da Ayahuasca. Isto enriquece à ambos. Todos sabemos que a tradição daimista do Mestre Irineu tem sua raiz na ancestralidade das plantas sagradas americanas. Mas havia outro personagem, melhor não citar nomes, querendo insinuar que o grande mérito do universo daimista viria do Pajé ashaninka, mais que de seu fundador, o Mestre Irineu. Isto a meu ver é um pensamento pobre, de ambos lados. Do lado ashaninka porque o valor de sua cultura e força espiritual não precisa se apoiar na história de ninguém, tem o valor em si mesmo. Inclusive o fato de ter sido o transmissor inicial tem um grande significado, mas não no sentido de se apropriar da história do Mestre. Existe outro fato histórico interessante sobre isto, referente aos irmãos Costa, primeiros companheiros do Mestre antes de vir para Rio Branco. Chegaram a fundar um centro espiritual juntos. Durante algum evento em homenagem a Irineu, descendentes dos irmãos Costa queriam trazer para eles o verdadeiro mérito da escola daimista. Ora, certamente todos os aprendizados por onde os discípulos passam tem grande valor, mas cada um faz a sua história. A história do Mestre Irineu é totalmente própria e genuína, foi ele quem recebeu o hinário do Cruzeiro, foi ele quem plantou a semente e hasteou a bandeira. Tenho certeza que o Benke conhece bem a força de sua raiz e não se envolve em confusões, mas por vezes as  cabeças por perto não tem a mesma fineza.

Trago estes assuntos assim meio cruamente, mas não no sentido de criar polêmica, mais bem de expor o que pude perceber. Os assuntos fervilharam como uma panela de Daime quando vai ao fogo. Primeiro levanta aquela fervura grande, quase derrama, tem que segurar, tudo vem à tona, depois o fogo vai trabalhando, o cambiteiro, o líquido vai apurando, a panela vai aquietando, até que no final, fogo mais brando, chega no ponto e o cambiteiro bate o sol, lua e estrela. Daí a panela é levada até a bica e escorre o líquido sagrado. A conferência passou por algo parecido. Muita história ferveu e foi trabalhada durante as palestras, depois nas cerimônias noturnas, e também nas inúmeras conversas e encontros que ocorreram durante a conferência. Senti que no final demos um grande passo. A verdade é que este foi o primeiro grande encontro das nações ayahuasqueiras da atualidade. Evidentemente não estávamos preparados. O Senador Jorge Vianna que prestigiou a  conferência, durante sua fala disse que caso os povos ayahuasqueiros, aproveitando a oportunidade de estarem todos reunidos, quisessem elaborar um documento com algum tipo de petição frente às autoridades, ele se propunha a ser portador e levar isto até o Senado Nacional. Mas evidentemente não havia nenhuma possibilidade de um documento conjunto, a teia inter relacional ainda muito crua. Mas quem estava antenado percebeu uma mudança. A convivência sempre é positiva. De certa maneira, quem lá esteve, percebeu que a bebida sagrada agora está no mundo. Um cientista bastante conhecido no universo ayahuasqueiro, Dennis Mckenna, por citar algum, disse uma frase que ilustrou bem a realidade, “o gênio saiu da garrafa…” ou seja, ninguém mais é dono, escapou ao controle, está no mundo… essa percepção acredito que trouxe uma maturidade coletiva, fez cada um sair do seu beco e perceber que a história cresceu muito. Os documentos finais, tanto dos povos indígenas como das casas ayahuasqueiras ditas tradicionais, foram mais brandos do que se esperava, quer dizer, demos um passo…

Há muito trabalho pela frente. Faço votos que aconteçam outros encontros desta natureza, tanto para o universo interno, entre os povos ayahuasqueiros, como externamente, na forma de apresentação do tema frente a sociedade. Nesse sentido vejo o valor do ICEERS, que promoveu o evento com muito profissionalismo, sempre com cuidado e respeito pela planta sagrada da Amazônia. Momentos assim permitem que as famílias ayahuasqueiras possam se conhecer, se respeitar, detectar os reais inimigos, encontrar espaços onde possam atuar em conjunto e atestar o grande valor das escolas de nossos ancestrais.

Sem nenhuma dúvida o grande prodígio já se manifesta, com diferentes roupagens, nas Igrejas, nas aldeias, nos terreiros, em volta do fogo, na beira mar, no alto da montanha, dentro das sagradas cerimônias onde o vegetal sagrado é reverenciado em sua ciência e sabedoria. Um dia, não tão longe como parecia, estaremos reunidos, as grandes famílias, atestando a verdade e o refinamento desta manifestação.

Fernando Ribeiro

Fernando Ribeiro

Historiador

Luis Fernando Ribeiro de Souza nasceu em Minas Gerais, Brasil. Estudou história na UFRJ. Aos 23 anos -1985- conheceu o Santo Daime, no início da  expansão desta tradição para fora da Amazônia. Fez viagens à floresta até que em 1989 se mudou definitivamente para a comunidade Céu do Mapiá, na Amazônia, onde viveu 12 anos, até 2001. Aqui trabalhou na escola, na Associação de Moradores e no projeto Daime Eterno, onde aprendeu a cozinhar o vegetal sagrado. A partir de 1994 iniciou viagens pelo Brasil, Europa e Japão, abrindo mercado para produtos da Amazônia. No ano 2000 foi preso na Espanha, junto com Chico Corrente, por portarem 10 ltrs do sacramento em suas bagagens. Foi um longo processo que culminou com o reconhecimento legal desta tradição na Espanha e a publicação de um livro sobre o tema. Desde 2002 vive em Juiz de Fora, Minas, onde dirige um centro daimista (Céu das Estrelas), trabalha com exportação de produtos da Amazônia e continua desenvolvendo estudos e pesquisas sobre as origens das tradições  ayahuasqueiras e sua entrada na sociedade moderna.